2.1.10

SENHOR DOS PASSOS 1999

PROCISSÃO DOS PASSOS


Em autêntico dia primaveril - até parece que foi milagre, tal era o desejo dos vareiros de ver realizada a muito secular e majestosa Procissão dos Passos.
O andor da Nossa Senhora das Dores saiu da Capela de Santo António ao encontro do nosso Se­nhor, dada a Capela do Calvário se encontrar em obras. Por várias razões, ao lon­go do tempo não foi caso inédito, pois algumas ve­zes tem acontecido.
Na Cape­la do Encontro na Rua Alexandre Herculano actuou o Grupo Coral do Orfeão de Ovar, e a procissão foram acompanhados pela Música Velha “Banda Filarmónica Ovarense”.
Como sempre os Passos estiveram abertos e primorosamente ornamenta­dos de flores, graças às zelosas senho­ras que em tão curto prazo de tempo não se pouparam a esforços, para que este ano não desmerecesse do passa­do. O povo vareiro é assim!
A Procissão embora realizada à última hora, primou pela organização e conseguiu até final não ter perdido o ordenamento da mesma.
Desde a saída do Senhor à Igreja Matriz e a da Senhora de Santo Antó­nio até ao recolher, os organizadores tudo fizeram para que a procissão terminasse em beleza. Sempre acompanhada por bastantes pessoas apesar de não ter havido qualquer propaganda.
Além das Irmandades foi acompa­nhada do Pálio pelo nosso reverendo Abade que celebrou as cerimónias reli­giosas.
Atrás do Palio seguiam as autoridades, sendo o Presidente da Câmara Dr. Armando França, à sua direita o Presidente da Assembleia Municipal Dr. Laranjeira Vaz e à sua esquerda a Presidente da Junta de Freguesia Prof.ª Esmeralda Souto. 
TEXTO: jornal "Notícias de Ovar" (18 de Março de 1999) - FOTO: António Mendes Pinto

CAPELAS DOS PASSOS
Um diálogo entre a Fé e a Arte

Entre o pouco património classificado do concelho de Ovar sobressaem as sete Capelas dos Passos, construídas em meados do século XVIII, época de grande surto da arte religiosa em Portugal, surto de que o nosso concelho também beneficiou.
A história destas Capelas, Imóveis de Interesse Público (Decreto-Lei n.º 37450 de 16/6/49), foi pormenorizadamente escrita pelo P.e Manuel Lírio em “Os Passos de Ovar” (Ovar 1922) e em “Monumentos e Instituições Religiosas – Subsídios para a História de Ovar” (Porto 1996), onde afirma que “não têm rival em terras portuguesas”. (Foto: Passo do Encontro, de Jesus com sua Mãe).


ORIGEM

A devoção dos Passos entrou em Portugal em 1584, segundo afirma o P.e Lírio. Outro sacerdote vareiro, P.e António Descalço, dá-a como existente em Ovar desde 1570 ou 1572. Um documento de 1880 sugere que a erecção desta Irmandade é anterior ao Condado da Feira, mas isso é desmentido pelos primeiros Estatutos que se lhe conhecem, datados de 13/11/1646 e reformados em 11/9/1727, que afirmam que a Irmandade “foi erigida com a protecção dos Condes da Feira”, portanto depois de 1452, data da Instituição do Condado (extinto em 1700, quando da sua transferência para a Casa do Infantado).

A devoção dos Passos centrava-se nos sufrágios pelos irmãos falecidos e na procissão anual que a mesa promovia no quarto Domingo da quaresma, a princípio com pobreza de meios e, depois, paulatinamente, com maior esplendor. (Em 1734 faz-se o “descimento” da cruz numa capela portátil, e em 1741 “as figuras de Jesus e S. João Evangelista, do Horto, levaram 23 côvados de tafetá, e as dos Judeus 23 varas de estopa grossa”. (Os Passos…, pág. 100).
O P.e Lírio refere que “aos ingénuos préstimos em que se conduzia o Senhor de cruz às costas no seu andor, mendigando-se às freguesias de Válega e Silvalde as alfaias indispensáveis que ainda não possuíamos, se juntavam as capelinhas portáteis de madeira e colmo, figurando as cenas mais comovedoras da Paixão, ao longo da trajectória a percorrer”, (“Monumentos…”, pág. 30). (FOTO: No Passo do Encontro há esta figura, que o povo baptizou como "Zé dos Pregos").


A CONSTRUÇÃO DEFINITIVA

Uma fé centrada no mistério do sofrimento de Cristo, de que a Cruz é a expressão mais patética, e a tendência da época para utilizar o teatro e as imagens como meio de comunicar os conteúdos da mensagem cristã, propiciaram o aparecimento de capelas cada vez mais grandiosas, à volta das quais se desenrolavam as grandes cenas da Paixão. Assim aconteceu em Ovar. Às Capelas portáteis sucederam, entre 1748 e 1756, capelas de pedra e cal, com imagens adequadas a cada cena representada. Esta decisão da Irmandade corresponde a um período de prosperidade e de influência. (O Governo decidiu contemplar a Irmandade com 1 real em cada quartilho de vinho vendido no termo de Ovar, o que possibilitou ainda a aquisição de paramentos e outras alfaias litúrgicas).

Porque as “Memórias Paroquiais” afirmam que em 1755 o terramoto de Lisboa abriu frechas na abóbada da capela do 1.º Passo, situada na Igreja Matriz, abóbada essa que era de estuque, o P.e Lírio conclui que a actual talha rococó e os quatro painéis em baixo-relevo lhe foram apostos em data ulterior.
Desconhece-se o autor da talha e das esculturas. Quanto à pintura sobre o reboco (frescos) e à incarnação das imagens, feitas na década de 1760 (1.ª campanha), “foram obra de António José Pintor, da vizinha freguesia de Válega, artista de fama que legou à sua família o nome de Pintor”. (“Os Passos…”, pág. 24). Mas as obras não terminaram. De 1783 a 1790 continuou a recuperação dos edifícios por Francisco Ferreira, e a pintura dos interiores por Manuel Pereira da Cunha Zagalo (2.ª campanha).
Não ficou perfeito o trabalho, pelo que houve necessidade de novas reparações e subsequente intervenção nas pinturas entre 1799 e 1817 (3.ª campanha).
As últimas obras de vulto fizeram-se em 1869, com pinturas de incarnação de imagens por Gabriel Pereira da Bela, de Ílhavo, em 1903 (no Pretório), em 1916 (no Calvário), e, a partir de 1943, pelo pintor espanhol German Iglesias que, para tal, assentou arraiais entre nós, com a sua família, vindo de Penafiel, por cá ficando até quase ao fim da vida).
Foi essa intervenção – não de todo feliz, no entender dos peritos na matéria – que chegou aos nossos dias, muito degradada, sobretudo nas paredes e estatuetas, cujas pinturas não resistiram às constantes mudanças térmicas operadas no interior das Capelas – sem ventilação capaz – ao longo de mais 50 anos. (Em 1969, foram feitas algumas obras de conservação, mas apenas no exterior).
Ao presente, ultima-se a reparação total das sete capelas, graças a uma verba de 70.000 contos provinda do Fundo do Turismo, através da Câmara Municipal.
Foram três as fases do respectivo programa de execução: paredes exteriores e telhados; retábulos e elementos escultóricos; pinturas murais.
É esta última fase que está em execução, prevendo-se para breve o seu termo.
No restauro de peças degradadas, aproveitou-se, ao máximo, o original existente, tentando, no caso das pinturas, e sempre que possível, aplicar “fechos” análogos…
Houve a preocupação de deixar, em alguns casos, um pequeno quadrado (“janela”) sem qualquer intervenção, como amostra do estado da degradação anterior.
Restituído, agora, à sua beleza original, o conjunto monumental dos Passos de Ovar continuará a ser, como há dois séculos e meio, no espaço urbano e cultural onde foram implantados, um verdadeiro livro aberto, onde a Fé e a Arte mantêm um diálogo franco e fecundo. TEXTO: P.e Manuel Pires Bastos/ revista "Reis" (1999).

Algumas notas sobre a Procissão dos Passos:


Antigamente, a Procissão dos Passos envolvia “tudo o que de mais distinto havia na vila”, além dos irmãos, que em 1830 eram 1500.
À frente, o arauto, a recordar a sentença de morte de Jesus.
Seguia-se o estandarte da Irmandade, com a sigla SPQR (Senatus Populusque Romanus), com dois Padres e dois bacharéis às borlas, o clero, com sua cruz de prata, muitos anjos, vestidos por armadores do Porto, e a Verónica, que chegou a ser representada por um rapaz imberbe, vindo de Aveiro. Seguia-se o andor do Senhor dos Passos, transportado por oito sacerdotes, figuras representando as Santas Mulheres, mais clero e o Pálio com o Santo Lenho. Atrás, a música (cordas e palhetas) e muito povo.
Na Capela da Rua da Fonte (actual Alexandre Herculano) havia o sermão do Encontro. (O andor de N.ª Sr.ª das Dores vinha da capela de S. Tomé e, mais tarde, da de S. Lourenço e de Santo António).
Entretanto, durante o dia, o povo visitava as sete Capelas, ganhando as indulgências concedidas à Irmandade pelo Papa Inocêncio X. TEXTO: P. B.

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